seu jão

Entrou no boteco manco e mal trapilho. Seu bafo exalava o fedor dos destilados de terceira linha que costumava a beber. Um fio de baba escorria pelo canto de sua boca, misturando-se a barba espessa e sujismunda logo abaixo. Caminhou até o balcão arrastando uma das pernas e fazendo ecoar pelo pequeno ambiente, ritmadamente, o som seco da batida de sua bengala de apoio. Parou em frente ao atendente, um homem alto e gorducho dono de longa cabeleira loura amarrada sem cuidado atrás da cabeça. Suas mãos nodosas agarraram-se firmemente o apoio da bengala. O pobre sentiu a vista falhar por um segundo.

– O de sempre, seu Jão? – Disse o loiro já pondo a mão na garrafa de pinga sobre o balcão. Seu Jão não respondeu. – Seu Jão? – Perguntou novamente o balconista, mas não obteve resposta.

O velho deveria ter já seus oitenta anos, barba cinzenta e cabelos de mesma cor – seriam brancos não fosse a sujeira – e era frequentador assíduo do bar da esquina. Todas as manhãs ele ali chegava, sentava-se sobre um dos bancos do balcão, pedia sua pinga, despejava o gole pro santo no chão do boteco, virava o copo e depois esperava que seus amigos chegassem para acompanhá-lo no carteado. Há anos que aquela rotina se desenrolava, mas naquela manhã o velho Jão parecia diferente.

Parado em frente ao atendente que lhe chamava o nome, seu Jão não ouvia o que ele dizia, nem o enchergava mais, uma mancha negra em sua visão lhe impedia tal sentido, e parecia haver algodões lhe tapando os ouvidos. Ele também sentia a lingua presa e o corpo sem forças para levar as mãos ao braço que lhe começava a doer. Quando pode abriu a boca e a baba escorreu livre pelos lábios encharcando sua barba. Seus joelhos cederam ao peso de seu corpo e o velho caiu no chão. Morreu. Deixou pro mundo a família de 13 filhos e 26 netos, de quem já não tinha mais notícia alguma. Enterram-no em uma cova para indigentes, e sobre ela a unica coisa que se via era a garrafa de pinga, suas cartas de baralho e o pedaço de madeira em que estava escrito “Seu Jão”.

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